Direito e saúde
Quesitos em perícia médica: 7 erros que enfraquecem a sua tese
Quesitos genéricos dão ao perito espaço para respostas vagas. Veja os erros mais comuns e como formular perguntas que o laudo não pode contornar.
Por Dr. Caio Araujo de Lima · · 3 min de leitura
O laudo pericial responde ao que foi perguntado. Se os quesitos são vagos, a resposta será vaga — e a impugnação, depois, terá pouco onde se apoiar. Estes são os erros que mais vemos nos autos, e como corrigi-los.
1. Perguntar a conclusão, não os fatos
“O reclamante está incapacitado?” é o quesito mais comum e o menos útil. O perito responde “não” e o laudo termina. Substitua por perguntas sobre os elementos que levam à conclusão: quais os diagnósticos, quais exames os confirmam, quais limitações funcionais foram observadas, para quais atividades da função elas são relevantes.
2. Não separar causa, concausa e agravamento
“A doença tem relação com o trabalho?” admite uma negativa que ignora a concausa. Formule três quesitos distintos: se o trabalho causou, se contribuiu como concausa e se agravou condição preexistente. Peça, em cada um, o fundamento.
3. Ignorar a cronologia
Perícias raramente datam o início da incapacidade — e essa data define estabilidade, benefícios e prescrição. Pergunte: quando surgiram os primeiros sintomas documentados? Quando a incapacidade se instalou? Ela é anterior ou posterior à admissão?
4. Aceitar que o perito não analise o posto de trabalho
Peça expressamente que o perito descreva as atividades da função, os agentes de risco documentados no PPP e no LTCAT, e se as condições do posto são compatíveis com a doença. Se ele não analisar, o silêncio vira fundamento de impugnação.
5. Não pedir o método
“Quais exames foram realizados na perícia? Quais escalas ou critérios diagnósticos foram aplicados? Quais documentos dos autos foram considerados?” Um laudo que não declara o método é mais fácil de impugnar — mas só se você perguntou.
6. Repetir quesitos da outra parte
Quesitos idênticos aos da parte contrária desperdiçam a oportunidade de direcionar o exame. Leia os quesitos adversos e formule os seus para cobrir o que eles evitam.
7. Formular quesitos sem apoio médico
Advogado não precisa saber medicina — mas o quesito precisa. Termos imprecisos (“problema na coluna”) deixam o perito livre para escolher o diagnóstico que responder. Um assistente técnico traduz a tese jurídica em perguntas clínicas verificáveis.
Um exemplo prático
Tese: LER/DORT em operadora de caixa.
Em vez de “A reclamante é portadora de LER/DORT decorrente do trabalho?”, o bloco de quesitos passa a ser:
- Quais diagnósticos foram identificados no exame pericial e por quais exames complementares foram confirmados?
- Quais movimentos, posturas e ritmos a função de operadora de caixa exige, conforme a descrição do PPP e da AET dos autos?
- Os diagnósticos identificados são compatíveis com exposição repetitiva de membros superiores?
- Há fatores pessoais que contribuam para os diagnósticos? Em caso positivo, o trabalho atuou como concausa ou agravante?
- Quando surgiram os primeiros registros dos sintomas nos documentos dos autos?
- As limitações funcionais observadas impedem quais atividades da função?
Seis perguntas que o laudo precisa enfrentar uma a uma — e que geram, no mínimo, seis pontos de impugnação se forem mal respondidas.
Quando envolver o assistente técnico
O momento ideal é antes do prazo de quesitos, com os documentos do processo em mãos. Depois do laudo, ainda é possível apresentar parecer divergente e quesitos complementares, mas a margem é menor.
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